Conheça a Europa a Pé e Tenha Acesso a Paisagens Que Não Se Têm Acesso Através de Qualquer Transporte…

Conheça a Europa a pé Fonte: http://www.ionline.pt/

Hoje e por ser fim-de-semana, quase de Verão, ou seja, que estamos quase a entrar no período de férias que os Portugueses mais veneram, e como tal, nessa orientação, li na semana, que hoje apresenta o seu terminus, uma reportagem onde fala, de uma viagem a pé pela Europa, neste caso, entre Viena e Budapeste. Vou transcrever a referida reportagem, mas penso que não é necessário comentário da minha parte à mesma, deixo ao livre arbítrio o comentário dos leitores.

« A Europa descobre-se a pé

De Viena a Budapeste, 290 quilómetros para conhecer com pouco mais que botas e mochila

Estávamos em Dezembro de 1933 e um inglês de 18 anos, Patrick Leigh Fermor, calçou botas com protectores, vestiu um sobretudo em segunda-mão, agarrou numa mochila e deixou Londres a bordo de um navio com destino a Roterdão, a partir de onde planeava viajar 2400 quilómetros até Istambul – a pé, quase sem dinheiro. Com base nesta jornada de um ano escreveu dois livros: “A Time of Gifts” e “Between the Woods and the Water”.

Pode um jovem com pernas fortes e pouco dinheiro encontrar o mesmo espírito de hospitalidade que Leigh Fermor encontrou? No final de Março lancei-me a descobrir a resposta. O meu plano era caminhar de Viena até Budapeste, uma jornada de 290 quilómetros em que tentaria seguir o rasto de Fermor, ao longo do Danúbio até Bratislava, capital eslovaca, e depois até à Hungria. Após duas noites em Viena, estava impaciente. Por isso, atravessei o Danúbio, pus às costas a minha mochila de 20 quilos e comecei a caminhar pela Donauradweg, uma ciclovia que vai da nascente do rio até à sua foz, no Mar Negro. Neste primeiro dia, decidi levar as coisas com calma e fazer apenas 24 quilómetros. O ideal seria atingir 29 quilómetros por dia – umas seis horas a caminhar – para atingir o meu objectivo. Parecia razoável, num terreno plano.

No entanto, havia obstáculos ocultos. Uma tentativa de atalhar caminho por um depósito de combustível deixou-me com arranhões e mais cinco quilómetros. Mas se me tivesse mantido no trilho, nunca me teria cruzado com Jean-Marc e Marie, ciclistas franceses recém-casados que pararam para dizer olá quando viram um caminhante solitário. Estavam a gozar uma longa lua-de-mel: uma viagem de bicicleta de dois anos, desde a sua casa em Paris até ao Japão! “Sabem onde vão ficar esta noite”, perguntei-lhes. Não sabiam. Disse-lhes para se encontrarem comigo em Ort an der Donau, uma pequena vila austríaca uns quantos quilómetros Danúbio abaixo, onde arranjara lugar para ficar através do CouchSurfing.org.

Na manhã seguinte, a caminhada começou bem. Os meus pés estavam macios mas a planura da Marchfelddamm, uma berma alta que faz de ciclovia e impede inundações, assegurava-me que não teria de me esforçar: estava no coração do Parque Nacional de Donau-Auen. Passaram 20 quilómetros antes de parar para almoçar e mais dez antes de chegar ao meu objectivo do dia: Bratislava.

Depois do check-in no Hotel Kyjev fui para a rua: não estava moído, nem mesmo cansado. Tinha bolhas nos pés mas eram tratáveis. Os meus tornozelos, porém, estavam inchados. Tomei ibuprofeno, um duche e a seguir jantar. Era sexta-feira da Páscoa judaica e, tal como qualquer outro judeu errante, queria uma refeição do Sabbath. Graças à Chabad, a organização da comunidade de judeus hassídicos, consegui uma, na casa do rabi Baruch Myers.

No sábado, inspirado pelo rabi e por causa dos meus pés, descansei e contemplei o futuro. Tinha caminhado 65 quilómetros até aí e se os meus tornozelos serviam de indicação, nunca conseguiria fazer os restantes 225 quilómetros. A não ser… Se apanhasse um comboio num curto trajecto até Bratislava – digamos, 25 quilómetros para nordeste – poderia, seguramente, caminhar mais 15 quilómetros. Estaria a quebrar as minhas regras, mas tratavam-se de regras arbitrárias.

A tarde já ia avançada e os meus tornozelos gritavam. O mapa que guardava no meu iPhone colocava a próxima cidade a 25 quilómetros mais a leste. Precisava de descansar – mas onde? Enquanto caminhava pelo passeio, vi um homem e uma mulher da minha idade a passear o seu cão. No meu melhor eslovaco, perguntei: “Onde é que há um sítio para acampar?” Quinze minutos depois, estava sentado à mesa da cozinha da família.

Desde Velky Grob caminhei 25 quilómetros por estradas cobertas de lixo e terrenos agrícolas desoladores, chegando a Sered, uma cidade cinzenta que odiei. Era segunda-feira de Páscoa e tudo em Sered e no país inteiro, ou pelo menos assim parecia, estava fechado. No dia seguinte, o dono da pensão deu-me boleia por alguns quilómetros até Strkovec, uma propriedade onde Leigh Fermor tinha ficado com o Barão Philip Schey, um dos personagens mais coloridos dos seus livros.

Finalmente, chegara à Hungria e Budapeste ficava apenas a 65 quilómetros. Dois dias de caminho, se os meus tornozelos não se revoltassem. Antes, no entanto, tinha de me conseguir arrancar de Esztergom, a cidade mais bonita desde Viena.

Quando parti nessa manhã, descendo a ciclovia nas margens do rio, tive a dolorosa sensação de que a caminhada daquele dia – 25 quilómetros até Visegrad – poderia ser a última. Os meus tornozelos estavam inchados mas não doíam muito. Só que depois de três horas, estavam transformados em pára-raios de agonia. Cheguei a Visegrad a meio da tarde e montei a tenda (pela primeira vez) num parque de campismo à beira da estrada, sabendo que no dia seguinte, depois de visitar o castelo de Visegrad, no alto do monte, apanharia a camioneta para Budapeste.

E foi assim que o meu passeio teve um fim prematuro. Se fiquei desapontado por ter feito todo o caminho a pé? Nem por isso. Percorri 180 quilómetros a pé e vi coisas que nenhum outro viajante de autocarro ou de comboio teria visto. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/62606-a-europa-descobre-se-pe, a 02 de Junho de 2010, em Jornal I

Boas Caminhadas Europeias!

RT

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