Conheça a Carreira de Ana Bola…

Uma Entrevista a Ana Bola... Fonte: http://www.ionline.pt

Quem não conhece a actriz Ana Bola? Trago uma entrevista que li num diário da nossa praça no decorrer do dia de ontem, vou transcrever a mesma na íntegra.

« Ana Bola. “Fazia teatro à noite e de dia ia dormir para o escritório”

Está zangada com a televisão mas não fica em casa a roer as unhas. Ana Bola está em digressão com “Vip Manicure – A Crise”

O camarim de Ana Bola nos estúdios da RTP, em Lisboa, mede pouco mais de um metro quadrado. Lá dentro cabe uma argumentista, uma actriz, uma antiga empregada de escritório e a mulher que ganhou por duas vezes o Festival da Canção. Felizmente, são todas a mesma pessoa – e assim sobra espaço para um jornalista que, durante as legislativas de 1995, acreditou ingenuamente que “A Mulher do Senhor Ministro” poderia acabar se o governo mudasse.

“VIP Manicure” já foi um programa de rádio, um sketch nos Globos de Ouro e uma série de TV. Como passou para o teatro?

Eu e a Maria [Rueff] tínhamos muitas saudades de fazer teatro e andar na estrada. As pessoas daquilo a que se chama “o resto do país” têm muito menos coisas para ver do que as gentes das grandes cidades, por isso estão muito mais sequiosas. E era importante, principalmente numa altura como esta, fazer chegar o humor às pessoas. Em vez de andarmos pelas ruas a remoer, a suspirar “ai que tristes que somos”, resolvemos aproveitar esta linda crise e regressar à manicure.

Nos primeiros anos de carreira também andou a percorrer o país. Está muito diferente?

É outro país. Por muito que as pessoas digam “ai estamos na mesma, ai isto é uma desgraça”, a verdade é que Portugal evoluiu imenso. Há 20 anos não havia nada – meia dúzia de teatros, a maioria deles a cair. As condições são incomparavelmente melhores.

Não encontra o país deprimido de que tanto se fala?

Eu tenho é os pés bem assentes na terra, sei que estamos a atravessar uma fase difícil e eu sou uma privilegiada. Os actores são-no, regra geral. A TVI e a SIC empregam carradas de gente a fazer novelas, por exemplo, não é o sector mais afectado pelo desemprego. Ainda não actuámos para teatros vazios, mas quem sabe se isso não nos vai acontecer ainda?

Sente a crise de alguma maneira?

Para ilustrar bem esta história da crise conto-lhe só que eu e os meus colegas actores recebemos agora infinitamente menos do que recebíamos há 10 ou 15 anos. Mas muito, muito menos.

Metade?

Às vezes menos do que metade.

O que é que serviu de inspiração para as personagens de “VIP Manicure”?

Eu e a Maria andávamos à procura de duas mulheres para fazer um boneco. Não queríamos repetir personagens: as comadres, as vizinhas, as cabeleireiras, esses clichés. Um dia íamos a passear no centro comercial Roma e vimos uma senhora enfiada num vão de escada a fazer unhas de gel. Achámos que tinha graça fazer essas manicures de centro comercial. Correu bem, sabe porquê?

Porquê?

Porque eu e a Maria Rueff temos uma coisa que poucos actores têm: uma cumplicidade natural desde o primeiro dia que nos conhecemos.

E como foi esse primeiro dia?

A Maria tinha 18 ou 19 anos. Fui vê-la ao Café Teatro em Lisboa num espectáculo que ela tinha com o João Baião. O Herman já tinha visto e tinha-a indicado para um programa que eu estava a preparar para a RTP, “Os Bonecos da Bola”. Procurava uma actriz nova, não só de idade mas fresca, sem vícios. Vi a Maria e achei-a logo fantástica. Contratámo-la na altura.

É a Ana Bola quem escreve “VIP Manicure”, mas não é assim tão comum os actores fazerem os seus próprios textos.

Comecei a escrever rábulas no “Parabéns” do Herman, depois escrevi os “Bonecos da Bola”, “A Mulher do Senhor Ministro”, o “Desculpem Qualquer Coisinha”; fiz crónicas de rádio diárias, quilómetros de letrinhas. Não, não há muitos actores a escrever. O Herman fez isso mas depois passaram a ser as Produções Fictícias a fazer. Somos poucos, sabe porquê? Porque é muito difícil.

E no entanto começou a dar aulas de escrita de humor há pouco tempo.

Sim, na ACT, que é uma escola de actores, com a Patrícia Vasconcelos e o meu filho. Primeiro questionámo-nos imenso se isto se ensinava e chegámos à conclusão que sim: não se ensina a ter sentido de humor e não se ensina a ter talento, mas há fórmulas universais. Há formas de escrever sitcoms, stand-up, séries. Da mesma maneira que se pode ensinar o actor a colocar a voz ou movimentar-se em palco.

Pela minhas contas começou a fazer teatro em 1976.

É isso.

Quer dizer que para o ano faz 35 anos de carreira.

Ai é!? Não sabia, mas começo é a achar que trabalho há anos demais. No outro dia estava a fazer as contas, até porque antes do teatro já trabalhava, e pensei: “Está na altura de me reformar”. Era lindo, mas não posso. Tenho de ganhar a vida. Se pudesse encostava-me já e fazia só o que me dá gozo.

Que é?

Escrever. Para os outros e para mim. Vai sair daqui a pouco tempo o livro com os guiões da “VIP Manicure” que é uma coisa muito gira: as pessoas acham que a gente sobe ao palco e diz ali umas larachas que se vai lembrando, mas não é nada disso. Depois estou a pensar escrever uma sequela de uma coisa muito divertida que fiz há uns tempos – e atenção que não sou escritora, tenho o maior respeito por eles, escrevo é umas coisas engraçadas. A continuação de “Absolutamente Tias”, um livro onde eu desfazia as tias. Soube-me tão bem! Agora o que me apetecia era fazer um o “Absolutamente Famosos”, já com nomes e moradas e tudo [risos]. Dar umas alfinetadas nessa gente que aparece nas revistas e que não faz nada, vive de expedientes e croquetes. Estão sempre na berra ao contrário dos actores, que só aparecem nas revistas quando morrem ou lhes morre alguém – como aconteceu agora com o João Baião ou o António Feio.

Começou com um emprego “a sério”, num escritório das nove às cinco. Porquê?

Na altura em que eu cresci, ser actriz não era uma coisa muito bem vista e não era um emprego de futuro. E está visto que continua a não ser [risos]. Então fui empurrada pelos meus pais a ir pelo caminho seguro: tirar um curso de secretariado no ISLA e arranjar emprego como secretária na administração de uma empresa. Fiz isso tudo, estive lá a trabalhar nove anos, coitados, coitados. Longos nove anos, até que um dia dou o salto.

Qual foi o trampolim?

Tinha muitos amigos do mundo do espectáculo, saía muito. Estava na plateia a assistir mas só queria estar lá em cima no palco e nunca à secretária de um escritório. Há um dia em que o Henrique Viana me convida a entrar numa revista no Teatro Adoque. Como era uma gloriosa inconsciente de 24 anos disse logo que sim. E acumulei a revista com o escritório durante um tempo: fazia a revista à noite e depois ia dormir para o escritório. Até que chegou a uma altura que tive de optar e escolhi o mundo do espectáculo.

Como conhece o Herman?

Estava com ele no “Passeio dos Alegres”, em 1980, éramos os dois jurados fictícios numa espécie de “Ídolos” a brincar. Depois o Herman começou a fazer os programas dele, com o Toni Silva e o “Tal Canal”. Eu não fiz esse programa, para grande desgosto meu. Disse-lhe depois “eu mato-te se não começo a trabalhar contigo”. E lá nos juntámos a trabalhar na rádio e televisão.

Imagina a sua carreira sem o Herman?

Não. Sem ele ou sem o Júlio Isidro. Mas o Herman foi fundamental, aprendi imensa coisa com ele e, além disso, passei com ele os melhores anos da minha vida. Juntar o prazer ao trabalho daquela maneira é um privilégio que poucos têm. Continuo a achar que havia um Portugal antes do Herman e outro depois do Herman. Revolucionou o humor e nunca ninguém o substituiu, continua único. Agora está mais recatado mas é quase um senhor de 60 anos e tem direito à sua pacatez.

Ficará na história como a mulher de um ministro mais famosa de sempre.

Essa série, “A Mulher do Senhor Ministro”, correu muito bem. Tenho imensa pena que não volte a haver uma coisa dessas. Foi um sucesso de tal maneira que ainda hoje passa na RTP Memória e tem seguidores. E continua actual porque isto está tudo na mesma: o país é uma pescadinha de rabo na boca. Como se costuma dizer, “só mudam as moscas…”

Era miúdo, lembro-me das eleições legislativas de 1995 e temer pelo fim da série se o governo mudasse.

E mudou! Mas lembro-me de estar no directo da RTP com um vestido metade cor-de-laranja e metade cor-de-rosa na noite das eleições. Ganhou o PS e passei o resto da emissão com o meu lado cor-de-rosa virado para a câmara. Olha, havia algum sentido de humor naquela altura mas não o suficiente para fazer uma coisa que eu queria muito: levar um político de verdade ao programa.

Diz que está cansada de fazer televisão. Porquê?

Estou cansada de fazer TV da maneira que estava a fazer. Não consigo ser criativa tendo consciência que o meu trabalho é julgado no dia seguinte por um número. Não tenho estômago para isso, não consigo. Há programas que são bons e são tirados do ar porque não fazem share. Isso tira-me do sério. Tinha um programa que ia para o ar na segunda-feira e eu na terça acordava às sete da manhã em pânico, “Ai Jesus quanto é que fizemos”. Não brinco mais a isso, não quero.

Pouca gente sabe que a Ana Bola venceu dois festivais da canção.

Como corista, sim. Isso foi um fait divers na minha vida mas olha, fartei-me de passear à custa disso. Como tinha amigos músicos e não canto mal nem canto bem (era afinadinha e orelhuda) então fui convidada para coros. Das duas únicas vezes que participei [com Os Amigos, em 1977 e Carlos Paião, em 1981] a canção ganhou. Fui uma vez a Inglaterra e outra à Irlanda. Foi muito divertido, mas não passou disso, nunca quis fazer carreira na música. Sabe, já há muita gente a cantar mal. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/83827-ana-bola-fazia-teatro–noite-e-dia-ia-dormir-o-escritorio, a 18 de Outubro de 2010, em Jornal I

RT

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