O Que Se Houve Às Terças Feiras à Noite Na Cidade De Lisboa…

A Roda do Choro às Terças Feiras Em Lisboa... Fonte: http://www.ionline.pt

Hoje trago um artigo que versa sobre o novo tipo de música que os lisboetas ouvem nas noites de terça-feira, passo a transcrever a referida reportagem.

« Roda de Choro. A música que anima os lisboetas nas noites de terça-feira

Salvaram o Lusitano Clube da falência e mudaram-se para a Casa de Lafões. Atrás levaram perto de 200 pessoas, que todas as semanas dançam ao som de um “primo do fado e da morna”

Sofia Paulo já chegou a dançar no meio da estrada em frente ao Lusitano Clube, em Alfama, com cuidado para se desviar dos táxis. A educadora de infância de 37 anos não aguentava o calor dentro da associação lisboeta que durante mais de dois anos recebeu os concertos da Roda de Choro de Lisboa. “Quando começou a ficar na moda, estive uns tempos sem ir”, conta Sofia. “Tinha sempre tanta gente que não havia espaço para dançar. Chegava a casa com as pernas negras de levar tantas caneladas.”

Agora já não tem esse problema. Desde o mês passado que a Roda de Choro de Lisboa se mudou para a Casa de Lafões, outra associação 400 metros à frente, na Rua da Madalena. “O espaço é maior e como tem umas janelas altas não faz aquele calor de estufa”, diz Sofia. Mesmo assim, perto de 200 pessoas costumam pagar quatro euros todas as terças-feiras para participar na “noite de chorinho”.

“É o ambiente de salão de baile, as luzes baixas, o chão de madeira, o pessoal porreiro, a dança, as associações que nos recebem bem…” João Raposo, de 25 anos, enumera várias razões para não perder uma noite “de Roda”. Mesmo que trabalhe cedo no dia seguinte. Ouviu pela primeira vez o grupo constituído por cinco músicos (dois brasileiros, dois portugueses e um francês) no Grémio Lisbonense, uma associação na Rua dos Sapateiros que teve ordem de despejo em Fevereiro de 2008. “Fui lá parar por acaso numa noite com amigos e achei piada”, conta. “Conheci os professores de samba e forró e meti-me nas aulas.”

Dançar até cair

Quase três anos depois não dispensa as lições de forró, tal como Ricardo Ferreira, produtor de imagem e comunicação de 27 anos, que costuma dançar “quase todos os dias”. Os resultados estão à vista. Quem chegar à Casa de Lafões às 22h30, hora a que a banda começa o “bailarico gingão”, como costumam chamar, vai sentir-se intimidado, principalmente se (ainda) não for grande bailarino. “Somos muito poucos que dançam muito bem e às vezes até me perguntam se sou professor de dança”, ri-se. Não é, mas podia ser. Assim que chega ao salão de baile, Ricardo pousa o casaco numa cadeira, cumprimenta quase todos os presentes – “há um grupo que vai sempre” – e assim que soam os primeiros acordes brasileiros voa para a pista. “Eu e a Sofia [Paulo] costumamos inaugurá-la e uma vez íamos caindo a experimentar um passo novo.”

A coreografia bem ensaiada inclui dezenas de rodopios e não é recomendável a quem enjoe com facilidade. Ricardo está sempre a ser requisitado por raparigas que querem mostrar o que aprenderam nas aulas de dança, que começam três horas antes da festa, no Lusitano Clube. Mas nem sempre foi o homem do baile. “Quando fui à Roda pela primeira vez, através de um encontro do Couchsurfing [uma comunidade online que, entre outras coisas, permite aos viajantes encontrarem alojamento gratuito] nem sabia dançar. Era só um passo à frente, outro atrás…” Sofia já dançava forró antes de ser habitué da Roda de Choro e, apesar de ser uma especialista, não tem muitos pedidos para dançar. “Modéstia à parte, há muita gente que não tem coragem, mas isso até incentiva as pessoas a irem às aulas de dança.”

Não se preocupe se não tiver muito jeito para dançar. Na Casa de Lafões há mesas e cadeiras para quem prefere ficar a observar e a beber uma caipirinha (a 3,5 euros) ou uma cerveja (a 1 euro). Além dos bailarinos natos e dos alunos mais assíduos das escolas de dança, a partir das 23h a pista enche-se de curiosos, desajeitados e pessoas de todas as nacionalidades – desde imigrantes brasileiros saudosos a turistas que vêm atraídos pela música.

O Barulho do Lusitano

Aliás, foi por causa das queixas de barulho que a Roda de Choro de Lisboa saiu do Lusitano Clube. “Os moradores e os comerciantes fizeram queixa do ruído”, conta Teresa Lousa, produtora da banda. “Em Portugal, essa lei tem um grande peso e isso obrigaria a obras dispendiosas de isolamento de som que não faziam sentido num salão de 105 anos com azulejos.” O que é certo é que o Lusitano pode agradecer aos músicos o facto de terem enchido a casa durante dois anos. “Eles estiveram fechados antes de chegarmos. Depois conseguimos angariar dinheiro para obras e agora voltaram a fechar portas desde que saímos.” À excepção das aulas de forró, com Pablo Dias, que continuam a funcionar no mesmo sítio. “Como não queremos desligar-nos da associação, estamos a pensar também fazer lá umas matinés de Roda de Choro no primeiro domingo de cada mês, já a partir de Fevereiro”, adianta Teresa. “A essa hora não deve haver problema em fazer barulho.”

O choro

O sucesso da Roda de Choro de Lisboa levou a banda a gravar um primeiro álbum, “Lusofolias”, que deverá estar pronto em Fevereiro. Os músicos (Nuno Gamboa no violão de sete cordas, Edu Miranda no bandolim, Carlos Lopes no acordeão, Alexandre Santos na percussão e Etienne Lamaison no clarinete) começaram a ensaiar em 2004 e passaram por vários bares – que entretanto fecharam – como o Fala Só, no Bairro Alto, ou o Cefalópode, em Alfama. “Começámos a tocar às terças-feiras porque era um dia em que nenhum dos músicos trabalhava”, conta Nuno Gamboa, director artístico da banda. Foi quando conheceu o cavaquinista brasileiro Mário Neto que Nuno se apaixonou pelo choro. “Não fazia ideia que era praticado no Brasil. O que é divulgado é o samba e a bossa nova e o choro era quase uma coisa de gueto”, explica Nuno.

Mas afinal o que é o choro ou “chorinho”, como é chamado no Brasil, onde nasceu? Nuno diz que é um primo do fado e da morna, já que surgiram na mesma altura, há mais de 130 anos. O melhor mesmo é ir hoje à Casa de Lafões e tirar as suas próprias conclusões. Até porque este choro está cheio de referências a musicas tradicionais portuguesa, como o Malhão ou o Vira. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/96598-roda-choro-musica-que-anima-os-lisboetas-nas-noites-terca-feira, a 04 de Janeiro de 2011, em Jornal I

Bom Som!

RT

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