Uma Entrevista a Virgilio Castelo…

Virgilio Castelo... Fonte: http://www.ionline.pt

Hoje trago um artigo que penso que seja interessante, nem que seja, por falar de um espectáculo que se pode ver até ao próximo Domingo, passo a transcrever o mesmo.

« Virgílio Castelo “A ficção é um brinquedo caro”

O consultor para a ficção na SIC diz o que se fez na televisão nos últimos 15 anos é “notável”. Agora volta ao teatro com um monólogo. Para ver até domingo

Há vários Virgílios Castelo. Há o actor de teatro, o encenador, o galã da televisão, o consultor da SIC, o ex-director da NBP e o escritor. Encontrámo-nos com todos na esplanada da Pastelaria Benard, no Largo do Chiado, em Lisboa, mas demos mais atenção ao actor. Com 57 anos, Virgílio Castelo faz o balanço de uma carreira com mais de 30. Está no Teatro Tivoli como um banqueiro que atira tudo para o ar e procura o tão falado “sentido da vida” em “Um, Ninguém e Cem Mil”.

Com 36 anos de carreira, ainda lhe dá prazer ser actor?

Representar é vital. Se tiver saúde, há papéis para todas as idades. Mas nunca pensei em ser actor.

Nunca?

Imaginava que ia trabalhar para ajudar os meus pais. Venho de uma família pobre e eu era o mais velho de quatro filhos. Comecei a trabalhar aos 14 anos e fazer uma coisa que me desse prazer não me passava pela cabeça.

O que fazia nessa altura?

Era paquete, depois trabalhei como escriturário, fiz entrevistas de mercado, fui empregado de mesa em Paris. Ser actor aconteceu quando voltei para Portugal, em 1971 e comecei a trabalhar como modelo mas para pagar contas.

Foi convidado?

Concorri a um anúncio de modelos. Correu bem e dos 19 aos 21 anos trabalhei como modelo. Ser actor aconteceu porque conhecia a Helena Isabel que me perguntou se não queria ser secretário num grupo de teatro.

E de secretário para actor?

Já era secretário no grupo e o Francisco Nicholson e o Mário Alberto olharam para mim e disseram: “Precisamos de um rapaz e vais ser tu”. Foi o primeiro espectáculo feito em liberdade. Tudo o que se vivia era do domínio da utopia. Pegava-se num miúdo e dizia-se: “Queres ser actor, ”bora.”

Como aprendeu a posar e a representar?

Vendo os outros e depois estudei representação em Estrasburgo. Vampirizo as coisas à minha volta. No meu tempo, literatura e cinema eram caminhos para vida. Depois o entretenimento tomou conta de tudo e raramente encontramos uma coisa em que se diga “isto é importante para a minha vida”.

Como reagiram os seus pais?

Para o meu pai foi complicado. Era funcionário do antigo regime e eu estava a trabalhar numa companhia comunista [Grupo de Teatro Adoque]. Não me desaconselhou, mas ficou um bocadinho zangado. A minha mãe achou óptimo. Herdei dela a vontade de fazer sempre coisas diferentes.

Como assim?

Não consigo parar quieto durante muito tempo. O meu pai teve dois empregos e só houve o segundo porque houve o 25 de Abril. A minha mãe teve 60. Foi cozinheira nas escolas, empregada de clínicas. Aos 60 anos respondeu a um anúncio para uma pizzaria na Alemanha. Contrataram-na e foi sozinha sem falar uma palavra de alemão. Herdei essa vontade de não estar parado. Ser actor é uma vantagem, porque posso sair dos projectos e entrar noutros sem ninguém ficar chateado.

Chegou a trabalhar como apresentador no “Isto Só Vídeo”. Gostou?

Sim. Era um formato simples, despretensioso. Só apresentei mais dois programas. Recusei muitos convites.

Porquê?

Ser apresentador, nessa altura, correspondia a ganhar muito dinheiro e quando se ganha muito dinheiro criam-se hábitos de vida em função disso. Para manter essa vida, teria sempre de fazer mais um concurso. O meu trabalho como actor iria para segundo lugar.

Como é o trabalho de consultor para a ficção nacional na SIC?

É muito engraçado porque estou do lado contrário de quando estava na NBP. O que faço é dar a minha opinião sobre o texto, os actores, ao director de programas e à direcção de programas.

A ficção está a melhorar ou há muito a percorrer?

Há muito a percorrer. O que fizemos com a ficção televisiva em 15 anos é notável. Não conheço nenhum povo que tenha chegado ao patamar de qualidade que chegámos. Não podemos é comparar com o que se faz em França, Inglaterra ou Brasil. Não temos escala. Isto é um brinquedo caro. É preciso dinheiro. Nós nunca tivemos e agora ainda temos menos.

A instabilidade é uma constante na vida de um actor. Como vive com isso?

Aprendi a viver com a insegurança e com a rejeição. Quando dizem “aqueles tiveram cunhas” ou “outras entram porque são bonitas”. Tudo isso pode existir. Mas tem um tempo limite. Ninguém sabe explicar como é que um actor ou actriz tem sucesso. É completamente arbitrário, porque as modas mudam. Há uns actores que são especiais que têm um estilo inconfundível, mas isso são meia dúzia. Todos os outros, que são normais como eu, levam alguns anos até encontrarem a sua especificidade.

Lidar com a rejeição é fácil?

Há boas e más histórias. Num casting que fiz com o encenador Jorge Lavelli, por exemplo, vi nos olhos dele o pensamento: “O que é que este tipo está aqui a fazer? Não tem jeito nenhum.” Saí dali destruído, nem precisei falar com a produção. Pelo lado positivo, fiz um casting no meio de um corredor, com técnicos a passar, num desrespeito total. Começo a enervar-me e desato aos gritos a insultar toda a gente. A realizadora contratou-me para protagonista da série de 1990 “Procura-se”.

Está no Teatro Tivoli com “Um, Ninguém e Cem Mil”. Porque decidiu interpretar um texto do Nobel Pirandello que nem era uma peça de teatro?

O Nelson Monforte queria trabalhar comigo. Contactou-me e propôs-me alguns textos, sempre monólogos. Quando apareceu o de Luigi Pirandello, achei que era o mais adequado. O texto é sobre quem somos e o que andamos aqui a fazer. Vem muito a propósito. A cereja no cimo do bolo é o facto do protagonista ser um banqueiro, filho de banqueiro, casado com filha de banqueiros, que larga tudo e acaba sozinho à procura de si mesmo. Achei que era uma metáfora sobre a actual conjuntura. O mais difícil foi adaptar o texto.

Porquê?

Aquilo é um romance, não uma peça. Além disso, queríamos uma adaptação que chegasse a todos os públicos. Deixámos o esqueleto da progressão da personagem e de lado ficaram as divagações. Resultou. Quando andámos em digressão uma senhora disse: “Isto são as coisas que nós pensamos antes de adormecer”. É isso mesmo.

Moscardo é um banqueiro meio enlouquecido ou está em busca de identidade. Costuma transportar as personagens consigo?

Um pouco, mas é preciso desmistificar isso. Se estou a fazer um personagem trágico, há um peso. Se andar a fazer comédia ando mais bem dispostos. Ao longo destes anos tive dificuldade com três personagens. Nada de especial.

Quais?

A principal foi na peça “A Rua”, de 1989. O meu personagem tinha sido interpretado pelo vocalista dos Sex Pistols, no Reino Unido. Era uma coisa violenta, sobre sexo, drogas e rock”n”roll. Precisava de duas horas para esgotar a adrenalina. Saía do teatro e tinha de ir dançar ou andar a pé. Não ficava a pensar: “Ai meu Deus, sou como ele”. O nosso trabalho é como o director da escola em Estrasburgo onde estudei dizia: “O actor tem de assegurar o mínimo da personagem, depois, de vez em quando, os deuses descem e somos bons”. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/101092-virgilio-castelo-a-ficcao-e-um-brinquedo-caro, a 28 de Janeiro de 2011, em Jornal I

Boa Peça!

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