A Vida de Sophia de Mello Breyner…

A Vida de Sophia Mello Breyner.. Fonte: http://www.ionline.pt

Hoje trago uma notícia que penso que seja bastante interessante, e que versa sobre o espólio de Sophia de Mello Breyner.

« Sophia de Mello Breyner Andresen. Cinco peças numa obra essencial

Cadernos rasgados, poemas inéditos, cartas à família. O espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen foi doado à Biblioteca Nacional. Hoje é a cerimónia oficial, com a inauguração da exposição “Vida e Obra” e leitura de poemas por Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra

“A sua amiga é muito bonita, só é pena é que faça versos”, escrevia Miguel Torga sobre Sophia de Mello Breyner Andresen a um amigo em comum. Fernando Vale apresentou-os quando a poeta ainda não tinha publicado uma só linha. “A minha mãe ficou furiosa. O Torga dava a entender que ela não precisa de se armar em esperta. Então, ela decidiu enviar-lhe poemas. O Torga gostou muito e incentivou-a a publicar. Encontraram-se em Fevereiro de 1944 e em Agosto saiu “Poesia””, recorda Maria Sousa Tavares, filha da poetisa.

O início da vida poética de Sophia de Mello Breyner Andresen torna-se agora ainda mais claro. “Depois de ler o espólio fiquei a conhecer melhor a minha mãe. Acho-a mais frágil no início, mas também muito forte”, diz ao i Maria Sousa Tavares. A avaliação do espólio da poetisa foi feita pela filha em conjunto com Manuela Vasconcelos (especialista em tratamento de espólios de Literatura Portuguesa Contemporânea) e Luísa Sarsfield Cabral (colaboradora no início do processo). Encontraram-se poemas inéditos, emendas a textos e cadernos rasgados. O tesouro estava guardado em dois escritórios e em mais de 80 caixotes que foram doados à Biblioteca Nacional. A cerimónia de doação acontece hoje, com a inauguração da exposição “Sophia de Mello Breyner Andresen – Uma Vida de Poeta”, comissariada por Teresa Amado e Paula Morão. Há ainda o lançamento do catálogo da exposição e a leitura de poemas por Beatriz Batarda e Luís Miguel Cintra. “São 200 e poucas peças, entre poemas, fotografias de infância, com filhos, com o marido Francisco Sousa Tavares, cartas à família, a amigos e inéditos. A primeira pré-selecção foi feita pela Maria Sousa Tavares e nós começámos a trabalhar em Março. Organizámos a exposição segundo dois grandes núcleos: vida e obra”, explica Teresa Amado. Paula Morão destaca como mais tocante a possibilidade de se ver os manuscritos. “A emoção para quem trabalha criticamente literatura é ver o poeta a pensar. O trabalho de emenda mostra que a poesia é uma busca, uma busca de perfeição, uma busca interminável. Só os grandes poetas são assim, Sophia faz parte dessa categoria.”

Antes de doarem o espólio, a família ainda perguntou se Câmara Municipal de Lisboa estaria interessada em comprar a casa de Sophia para fundarem um museu. A resposta foi evasiva. Até a inclusão da poetisa no talhão de escritores no Cemitério dos Prazeres, em 2004, foi estranha. “Na altura da vereação do Santana [Lopes], responderam-nos por telefone que teriam de tirar a Natália Correia para a pôr. Fiquei tão escandalizada que comprámos no cemitério de Carnide uma sepultura perpétua”, recorda Maria Sousa Tavares. A filha da poetisa está feliz com este trabalho e espera que os jovens investigadores se interessem pelo espólio. “Há muito trabalho a fazer.”

Mapa do tesouro na exposição

1 – Carta da mãe de 1944 Falava sozinha, dançava na rua, coisas exóticas para o meio onde Sophia tinha nascido. A mãe escrevia-lhe: “Aos 15 anos ser original tem graça, aos 24 parece uma tonta”. Em 1944, depois de publicar o primeiro livro “Poesia”, a opinião mudou. “Minha querida filha, minha rica, chegaram aqui os seus versos, guardei um livro para mim que li e reli. (…) Custou-me tanto a habituar-me à ideia de uma filha poeta, não esperava nada que isso me acontecesse mas agora já sei como é, já compreendo tudo.” A carta faz parte do espólio e pode ser vista na exposição. “A minha mãe levava cada raspanete. Ela dizia-lhe para que fosse uma pessoa normal”, conta Maria Sousa Tavares. “Percebe-se que não estava a par das criações e ficou assustada. Mas depois há uma rendição. Compreendeu que era uma coisa muito especial”, refere uma das comissárias da exposição, Teresa Amado.

2 – Cadernos rasgados Uma prenda de aniversário improvisada esteve na origem de uma das maiores descobertas do espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen. No baú das fotografias antigas, que a filha Maria Sousa Tavares herdou, estavam escondidos cadernos com poemas inéditos e textos da adolescência. “A 17 de Março 2010, a minha irmã Sofia fazia anos, como não tive tempo de lhe comprar um presente, decidi procurar uma fotografia antiga. Ao remexer, apercebi-me que o baú tinha uma espécie de fundo falso. Levantei a tampa e encontrei alinhadinhos cadernos com poemas de 1933. E os tais cadernos rasgados”, recorda Maria Sousa Tavares. Esta é uma das peças mais interessantes do espólio: os cadernos com os primeiros poemas. “Percebe-se que Sophia passou por uma fase de insegurança, de dúvida. Mas também entendemos que poesia não foi um acaso, era qualquer coisa que estava com ela. Até escrevia em papéis de recados”, diz a comissária da exposição. Os dois cadernos rasgados são referidos em poemas posteriores. E quem os colou foi o amigo António Calém.

3 – 25 de Abril “Criámos um núcleo 25 de Abril, porque foi uma coisa importantíssima. Ela tinha 53 anos na altura e esteve um ano na Assembleia Constituinte. Ler os discursos dela é interessante porque vê-se que não tinha uma linguagem politica sistematizada, diz exactamente o que pensa”, defende Teresa Amado. Na exposição podemos ler um poema de 27 de Abril de 1974. “Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo”.

4 – Inéditos “São muito bons, é quase pleonástico dizer isto”, refere Teresa Amado. Um dos poemas encontrado é: “Um dia, mortos, gastos, voltaremos/ A viver livres como os animais/ E mesmo tão cansados floriremos/ Irmãos vivos do mar e dos pinhais.” Outro texto em prosa a destacar é “A coisa mais antiga de que me lembro é uma tarde de Primavera em que eu talvez ainda não tivesse nascido” que nunca foi publicado.

5 – Primeiro Poema “Sophia disse que o primeiro poema que escreveu foi “Primeira noite de Verão”, mas há dúvidas”, explica Teresa Amado. “Esse poema está datado de 38, mas em 33 ela já tinha poemas”, refere Maria Sousa Tavares. »

 

In: http://www.ionline.pt/conteudo/100587-sophia-mello-breyner-andresen-cinco-pecas-numa-obra-essencial, a 30 de Janeiro de 2011, em Jornal I

 

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