Uma Entrevista à Actiz Catarina Wallenstein…

A Entrevista a Catarina Wallenstein Fonte: http://www.atalantaclapfilmes.blogspot.com

Hoje trago uma entrevista com a Catarina Wallenstein, veja a peça jornalística.

« Catarina Wallenstein. “O palco é um abismo muito maior”

A actriz de 24 anos sobe hoje ao palco do Teatro Aberto, na antestreia da peça “O Álbum de Família”. Não fala da vida pessoal e confessou fazer parte da geração à rasca por opção própria

Fumou um cigarro a correr e falou no intervalo dos ensaios, na hora em que devia estar a jantar. Deixou-se cair nas cadeiras vermelhas do Teatro Aberto e confessou estar “de rastos”. Catarina Wallenstein tem 24 anos e é uma das actrizes mais promissoras da nova geração, segundo o European Film Festival, que lhe atribuiu o prémio de Jovem Talento em 2007. Queria ser cantora lírica – como a mãe – mas acabou por se entregar à representação – como o avô e o tio. No cinema estreou-se aos 19 anos, em “Lobos”, de José Nascimento, ao lado de Nuno Melo, com quem protagoniza uma incestuosa cena íntima (os personagens eram tio e sobrinha). Já contracenou com Catherine Deneuve, num pequeno papel em “Aprés Lui”, foi a “miúda” de Eça em “Singularidades de uma Rapariga Loura”, de Manoel de Oliveira, e uma vampira impiedosa em “Destino Mortal”. Sexta-feira sobe ao palco do Teatro Aberto com “O Álbum de Família”, de Rui Herbon, com encenação de Tiago Torres da Silva.

A acção da peça passa-se antes ou depois do 25 de Abril?

É difícil de explicar, vamos lá ver se eu consigo. O protagonista está depois do 25 de Abril mas convoca memórias e a minha personagem está antes do 25 de Abril.

Foi difícil entrar num tempo que não é o seu, mas que também não é assim tão longínquo?

É complicado, principalmente para a minha geração. Eu tinha uma avó que tinha um pouco esse papel. Ela era neta do primeiro-ministro da I República, era toda uma linhagem de família muito engajada. Era ela que me contava… Mas só pelas descrições, leituras ou documentários não é possível perceber como era a vida nessa altura. As histórias que nos contam são pequenos factos. Não sei como é o ambiente, tenho algumas referências que me contaram mas a nossa geração não pode ter… não consegue.

Vem de uma família de artistas. Seguiu este caminho porque a incentivaram?

Sempre foi normal esta coisa, o fazer desenhos nos bastidores nos ensaios dos pais ou assistir às aulas de canto da minha mãe, ir ao teatro era naturalíssimo para nós. Os meus avós foram muito responsáveis por isso, levavam-nos ao teatro quando éramos pequenos. E depois sempre foi aquilo que me interessou, nunca me imaginei num trabalho das nove às cinco. A primeira coisa que quis ser foi cantora de ópera.

E foi assim que começou.

Tanto eu como o meu irmão fomos inscritos numa escola de música desde pequeninos, na Fundação Musical dos Amigos das Crianças. Estudei violoncelo e andei no coro. Aquele coro era o que fazia as óperas infantis no São Carlos e desde pequena que participei em várias. Depois descobri que havia um ateliê de teatro no Liceu Francês, onde eu andava, e achei importante experimentar o lado cénico. E fiquei fascinada.

Trocou o canto pela representação definitivamente?

O canto é uma coisa que sempre me acompanha. Lírico ou não. Há fases em que exercito o instrumento, é como as espargatas, se não se exercita depois já não se chega aos agudos, mas o canto faz parte de quem sou. Mas nunca mais pensei “é isto que vou fazer da vida”.

O que é que a cativa na profissão?

A construção da personagem, do detalhe, do poder mudar as coisas de um dia para o outro. Lembro-me que na minha primeira actuação a minha mãe me disse umas coisinhas – “Não estejas sempre tão zangada, tão pesada”- e o gozo que me deu, no dia seguinte, compor a personagem, acho que foi nessa altura que decidi ser actriz.

Qual é o verdadeiro amor: teatro, cinema, televisão ou canto?

Não sei… Não tenho tanta experiência assim em nenhum deles. Agora sinto-me mais confortável a trabalhar com câmara, cinema, porque há mais tempo, há todo um tipo de controlos técnicos e entre as gotas da chuva já sei mais ou menos qual é o meu espaço. O palco é um abismo muito maior, está a ser uma descoberta.

No filme “Lobos” tem uma cena muito íntima e de nudez com Nuno Melo. Como é a preparação para uma cena dessas?

Convencemo-nos de N coisas para não pensar na parte desconfortável e constrangedora. Estou aqui, estou a encarnar, é um personagem, este senhor é muito querido e meu amigo mas nada tem a ver comigo. Depois há muitos cuidados que se tem em rodagem para os actores estarem mais confortáveis. A equipa é reduzida, para não haver tanta gente a olhar e não ficarmos constrangidos com técnicos. Uma data de cuidados pequenos que nos fazem sentir mais mimados. A equipa do guarda-roupa corre com roupões para cima de nós quando acaba a cena, para nos taparmos e haver aquela ilusão de acaba a personagem: “Já não sou eu, não estou nua à frente de toda a gente.”

Voltando atrás, ao 25 de Abril e às mudanças sociais: identifica-se com a geração à rasca?

Não estou num meio standard nem tenho um ritmo de vida standard. Evidentemente que há meses em que estou muito à rasca porque não tenho sequer um part–time. O ano passado estive oito meses parada, depois fiz umas sessões, depois estive três meses sem fazer nada, depois surgiram umas locuções… Acho que nós escolhemos viver à rasca e o à rasca não é só o dinheiro, é a incerteza, os recibos verdes. Mas é bom que todas as gerações tenham coisas para reclamar, porque senão significa que achamos que está tudo feito.

Como é que vivia quando não ganhava?

Amealhei, vivi numa casa de 25 m2, comia muito atum, mas sem me queixar muito. Depois faço umas locuções e consigo amealhar mais um bocadinho, e é assim, irregular.

E não faz presenças em festas e inaugurações? Vai a esse tipo de eventos?

Vou a alguns, porque a Catarina quer ir, não porque a Catarina quer aparecer e mostrar-se. Presenças não, não há. Por enquanto, não vou dizer que nunca vai haver nada porque não sei o dia de amanhã e não sei o que me vai acontecer. Acho óptimo ir gerindo aquilo que me vai aparecendo, mas para já não. Há eventos em que está a imprensa e a que eu vou, mas não porque está a imprensa ou porque me pediram para ir, mas porque quero. Se fosse desconhecida e me convidassem eu iria na mesma. Quero ser a mesma pessoa na relação com o exterior como sozinha entre quatro paredes.

Disse em entrevista que o que faltava ao cinema português era dinheiro e apoios. Só isso?

Faltam guiões. Falta quebrar o ciclo vicioso do “não vou ver porque não deve valer a pena, então também não vale a pena fazer melhor, depois temos de ser elitistas, as pessoas não vão ver” e falta quebrar isso. É preciso sonhar, arriscar, inovar. Muitas vezes a maior parte dos filmes portugueses são escritos pelos próprios realizadores, não temos uma grande população de argumentistas. A maior parte deles estão em empresas de criação de séries e telenovelas. É preciso escrever mais, ver mais, produzir mais, apoiar mais, variar mais, gostar mais para se consumir mais os produtos nacionais. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/114290-catarina-wallenstein-o-palco-e-um-abismo-muito-maior, a 31 de Março de 2011, em Jornal I

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