Conheça a Cidade das Bicicletas…

Cidade das Bicicletas... Fonte: http://www.ionline.pt

Hoje trago um artigo que pode ser interessante, especialmente para os fãs das bicicletas, passo a transcrever o mesmo.

« Bike Buddy. Esta cidade não é para ciclistas enferrujados. Pelo sim, pelo não, peça ajuda

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 A crença popular só sossega bravos irresponsáveis. E por pouco mais que cinco segundos de atordoamento. Dizem as vozes do alto da sua sapiência de polichinelo que quem aprende a andar de bicicleta nunca esquece a arte e o engenho de manobrar um guiador.

Convenhamos, ninguém que deixou de viajar sobre duas rodas praticamente desde o dia em que aprendeu a fazê-lo – pelas minhas contas, já lá vão uns 15 anos – pode deixar o perfeito juízo à mercê de crenças. Muito menos quem inclui nicotina na ração diária de nutrientes, quem apresenta uma condição física que enobrece uma lesma em canadianas e quem encara a ginástica com o optimismo com que um inocente condenado à morte estica o braço para receber a injecção letal.

Mas cá estou eu como combinado, no Marquês de Pombal, a zona mais tranquila de Lisboa e arredores em matéria de trânsito, como é do conhecimento comum. Às onze da manhã, o termómetro primaveril rivaliza com o mercúrio de Agosto, um cenário idílico para provas de esforço, como também é do conhecimento comum. Ainda não trepei para o dorso da bicicleta de montanha que me reservaram e já me sinto como se tivesse acabado de completar os 42,195 quilómetros da maratona.

À minha espera, um Bike Buddy. Ou melhor, cinco Bike Buddies e um apêndice que me deixa dividida entre o sinal de estímulo e a mais profunda frustração. Rui trouxe o filho de quatro meses, presença que oficializa o pior dos meus receios. Além de preverem que a aselhice exige medidas de choque – uma guarda de honra – ainda me servem uma humilhação com o patrocínio de um bebé de fraldas. Pois bem, se a criança já navegou pela cidade ao sabor do pedal, ainda que numa cadeirinha, eu serei um Vasco da Gama pela calçada portuguesa, paralelos, alcatrão esburacado e outros pisos solidários com os pneus e os braços dos ciclistas, mais um dado do conhecimento comum.

Respiro fundo. Quem tem amigos tem tudo, e estes têm tudo para me ajudar a circular até à Praça do Município sem estropiar três idosas com saquinhos do supermercado pelo caminho, ou ser engomada por um autocarro da Carris inclemente. Fazem uso regular das bicicletas na cidade e recusam-se a acreditar que sete íngremes colinas configurem sete pecados mortais para esta actividade.

Se o leitor consegue atingir um nível de impreparação inferior ao meu, vá aprender primeiro com quem sabe. O grupo não ensina a andar de bicicleta. São antes voluntários na assistência aos ciclistas pouco experientes nas andanças na cidade, seguindo-os a par e passo nos seus trajectos, uma iniciativa da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta. No meu caso, já terá percebido, só por especial condescendência dispensei o curso de reciclagem.

Resolvido o detalhe do selim, demasiado elevado, arrisco um modesto teste no passeio antes de medir forças com as feras motorizadas. Na verdade, estando longe das proezas de um craque, tenho uma agradável surpresa. Não tombei de imediato, não me despistei numa curva, nem travei amizade com o canteiro da frente. Morri apenas às mãos da dita crença popular, sem perceber se isso me agrada ou irrita. Comprova-se: quem aprende jamais se deixa sinistrar pelo esquecimento. Um único apontamento capaz de macular o figurino: fui aos travões com a sede de um peregrino no deserto e quase virei o boneco. “Cuidado. Eles estão bem afinados.” Já vi, já vi.

Paulo segue à minha frente e faz as vezes de tutor principal. De cinco em cinco segundos olha para trás, para confirmar que a buddy Maria segue incólume no seu encalço, imune a fracturas expostas ou à tentação de um desacato num engarrafamento. Rita e Sofia fecham a comitiva em amena cavaqueira. António segue ao meu lado.

Ganhamos terreno à fila de automóveis e atalhamos pela faixa BUS. A buzinadela de um motorista de praça leva- -me a crer que estou a invadir território sagrado. Não se enerve. Peça desculpa e rectifique a sua posição. “Não convém ficar tenso e há que ser assertivo.”

Um perigo iminente ameaça os amadores ansiosos por recuperar os anos vencidos pelo ócio. Previno-o que se sentirá investido de uma destreza miraculosa, que o convidará às loucuras mais suicidas. Na Rua do Ouro, com o Tejo ao fundo, imagino-me a alcançar a Margem Sul com um hábil voo de bina que me levaria, quem sabe, ao Seixal. Quem diz ao Seixal diz à senha prioritária nas urgências do São José.

Ponderei tirar as mãos do guiador, executar uns quantos cavalinhos comprometedores da dentição da frente, arreliar taxistas com o barulho da campainha, sacar do telemóvel para narrar a façanha aos amigos em directo, e desembainhar um cigarro do maço para coroar o percurso com uma nota de estilo. A experiência mostra-nos que o sentimento de falhanço e a noção de triunfo estão separados por escassos metros.

Consegui reprimir cada uma destas obras encomendadas por algum pajem do demónio. Mas ninguém me demoveu de subir o Chiado, qualquer coisa como Alpes meets Zara meets Brasileira e, esperava eu, jamais meets alguém que conheça, para poder evitar a chacota. É o que dá voluntariar-me para levar a minha bicicleta emprestada até ao Príncipe Real, para que o meu buddy não tenha de transportar duas biclas consigo. Quer um conselho? Tome a liberdade de ser egoísta e guarde a simpatia para planos pouco inclinados.

A escalada da Rua Garrett oscilou entre os dez segundos de consagração e uma eternidade sem fôlego, com o coração a gargalhar-me na boca antes de cruzar a meta. Pensei que nunca mais ia voltar a ver a estátua de Pessoa. Pior, que me ia encontrar com ele algures no céu. Ainda por cima, sem ter tomado um duche.

De dia ou de noite, para ir para o trabalho ou em lazer, entre em bikebuddy.mubi.pt e faça o seu pedido »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/118094-bike-buddy-esta-cidade-nao-e-ciclistas-enferrujados-pelo-sim-pelo-nao-peca-ajuda, a 21 de Abril de 2011, em Jornal I

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