Conheça Uma Entrevista a Alice Vieira…

Entrevista a Alice Vieira... Fonte: http://www.ionline.pt

Hoje trago um artigo sobre uma escritora da nossa praça, especialmente no que concerne a livros infantis, desta feita, chama-se Alice Vieira…

« Durmo três horas por dia. Não é que não tenha sono, não tenho é tempo para mais”

 “O Livro da Avó Alice” é a mais recente obra da escritora, que se divide entre livros, netos, amigos e 20 cafés por dia

Há livros por todo o lado. Diz-nos, entre gargalhadas, particularidade que mantém durante toda a conversa, que às vezes sonha que entra em casa e os livros lhe caem todos em cima. É dona de uma vida que dava um guião de cinema: casou-se com o homem que um dia lhe escreveu, tinha ela 14 anos, a recusar um texto que tinha enviado para o “Diário Popular”. Mário Castrim, que aos 48 se casou com uma Alice Vieira de 20 e tal. A união foi um escândalo. A escritora, que faz parte do imaginário de quase todos os miúdos de hoje e daqueles que já passaram os 30, gesticula muito e não tem manias de estrela. Com a mesma naturalidade com que fala dos livros (que já lhe valeram inúmeros prémios literários), confessa que tem “um segundo cancro” mas que não tem medo de morrer. Aos 68 anos, com quatro netos, lançou um livro autobiográfico. “O Livro da Avó Alice”, onde não ensina a ser avó, mas conta como o faz: sem medo de brincar numa casa cheia de histórias.

Enviou o seu primeiro texto para o suplemento “Juvenil” de “O Diário de Lisboa”, aos 14 anos. Foi recusado.

Faz agora muitos anos, foi por esta altura. Eu escrevia sempre muito e sempre quis muito ser jornalista e achei que era uma óptima maneira de começar a fazer umas coisas. E achava que escrevia muito bem. Enviei um texto que obviamente foi recusado porque era muito mau, lógico.

Era sobre o quê, lembra-se?

Ai, não sei, era uma coisa terrível, muito desgraçada. Sei que na resposta me diziam “mas porque é que as pessoas têm sempre de ser tão tristes”? E eu fiquei a pensar naquilo e achei que ele tinha razão. Era um texto de uma miúda de 14 anos, daquela altura, não de agora, portanto era uma coisa muito rebuscada e ainda bem que recusaram. Mas continuei sempre e depois os textos começaram a ser publicados, outros não. Explicavam-me o que é que estava mal, davam-nos muitas indicações.

Foi lá que conheceu Mário Castrim?

No fundo eu já o conhecia porque era ele que me respondia aos textos, só que era por carta. Não sabia quem ele era. Era alguém que me respondia e dizia “isto está mal, isto está bem”, pronto.

Como é que vai parar ao jornal?

O “Juvenil” fazia umas entrevistas aos seus colaboradores mais assíduos, para nos conhecerem, e convidaram-me para lá ir ser entrevistada. E eu fui, estou aqui [mostra uma fotografia tirada no jornal nesse dia], com 18 aninhos. Depois começou-se a falar “porque é que não vens cá ver como é que isto se faz, onde é que se faz, as máquinas” que na altura eram aquelas máquinas velhas, as rotativas. O chumbo… eu digo sempre que o cheiro do chumbo quando se mete cá dentro, nunca mais sai. E disse logo, “é isto que eu quero”.

Porque é que quis ser jornalista?

Ai querida, porque quando era muito pequenina – eu nem sabia o que era ser jornalista – ouvi dizer que era uma pessoa que nunca estava em casa. E se havia essa profissão, era isso que eu queria ser. E foi mesmo! O meu sonho sempre foi fugir de casa rapidamente.

Voltando ao seu marido… Foi amor à primeira vista?

Eu acho que sim… acho que olhei para ele e pensei: é este que eu quero para mim. Mas repare, ele tinha mais 23 anos do que eu, tinha família, era casado, tinha 40 e tal anos. Portanto, foi uma grande escandaleira.

O que é que as pessoas diziam?

Quando fomos viver juntos ele estava já em processo de divórcio. Ele tinha 48 e eu 20 e tal. Deixaram-me de falar. De resto, a família dele nunca mais me falou, até hoje. Um irmão dele, que morreu há pouco tempo, nunca me conheceu, nunca conheceu os sobrinhos, que são os únicos que ele teve, nunca foi ver o irmão ao hospital quando estava doente, não foi ao enterro, nada. Da família dele não conheço ninguém. Não sei nada da vida dele antes de nos conhecermos. A minha família amaciou mais cedo. Assim que os miúdos nasceram… e gostavam muito dele. As minhas tias diziam que ele era a melhor coisa que tinha entrado na família, adoravam-no. Ele tinha uma paciência para elas que eu não tinha, dava-lhes chazinho, ia buscá-las…

E foi um amor assolapado?

Ai foi, foi. 40 anos. Costumo dizer que foi assim até ao último dia da vida dele. Não me lembro de uma zanga, de nada. Ele tinha uma relação com os filhos extraordinária e com os três primeiros netos também, a mais nova é que já não o conheceu. O meu filho conta-lhes muitas histórias do avô – a maior parte delas aldrabada, mas não faz mal, o que é preciso é contar – e é uma memória muito viva. A gente festeja sempre o dia de anos dele, sempre. Com bolo, velas e tudo. Marcou-nos muito.

Ele incentivava-a a escrever?

Muito, muito. Eu acho mesmo que ele deixou a carreira dele de escritor para trás exactamente para que eu pudesse fazer a minha, não tenho dúvidas nenhumas. Agora na Caminho vão publicar um livro inédito dele. Ele deixou muita coisa inédita e vamos reeditar outras obras. Mas dizia sempre que não tinha paciência para editar, queria era escrever. Para eu fazer a vida que fazia, ele tinha que ficar com os miúdos, e tratar da casa. Tinha que aguentar o barco. Quando eu estava no “Diário de Notícias” as minhas folgas eram à sexta e ao sábado e assim que eu saía na quinta à tarde ele dizia-me logo, “vai-te embora, tens de ir trabalhar sossegada”. Tínhamos um apartamento em Cascais, pequenino, onde eu trabalhava sossegada aos fins de semana. Às vezes ele ia lá ter comigo. Havia uma vizinha que achava que eu tinha um senhor que me fazia visitas. Era uma relação tão forte que quando ele morreu nunca mais voltei a Cascais. Dei a casa à minha filha e nunca mais lá entrei.

“Rosa, minha irmã Rosa”, o seu primeiro livro, nasce graças aos seus filhos?

Nasceu sobretudo de eles estarem sempre a atazanar-me o juízo e dizerem que eu passava a vida no jornal, o que era verdade, e que escrevia para o jornal e nunca escrevia nada para eles, eram uns infelizes, coitadinhos. Resolvi então escrever uma história com eles. Despachei-a em 20 dias mas nunca pensei que fosse publicada, nunca. Nota-se um bocadinho que eu quis contar tudo naquela história, porque pensei: “Despacho isto e nunca mais tenho de escrever nada.” Foi sempre a ideia que tive.

Mas eles ajudaram-na com a história?

Muito. Há um capítulo inteiro que começa com um problema qualquer de ângulos, a intersecção de A com B, que era exactamente o problema que estava no caderno do meu filho nesse dia e eu copiei. Quem nos conhece sabe que aquilo somos nós há 30 anos. Eram os colegas deles, a escola, os professores. As tias, as flores, é tudo a nossa vida, só mudei os nomes. A única coisa que não é completamente autobiográfica é a questão da irmã que nasce 10 anos depois. Os meus filhos têm um ano de diferença e não se lembram de um sem o outro. Só que nessa altura ia nascer outro filho e eu tive muito receio que eles reagissem mal. Então construí essa história e eles não deram por nada. Íamos discutindo sem eles darem por isso. Mas depois tive um desastre de automóvel e a criança não veio. Dei-lhes a história, eles gostaram muito e nunca mais me lembrei daquilo.

Até que ganhou o prémio da Caminho.

Era uma editora que estava a começar e que aproveitou ser o ano internacional da criança, em 1979, para lançar esse concurso do melhor texto do ano. E quem enviou o texto foi o meu marido que foi exactamente como eu o tinha escrito em casa, não foi mudou uma vírgula. E ganhou. Há 32 anos não era muito habitual este tipo de histórias que mostram o dia-a-dia das pessoas. Para os miúdos escreviam-se aquelas histórias com fadas e princesas. Porque este é um livro perfeitamente banal, o diário de uma família, pronto. E vendeu-se imenso.

E quanto é que foi o prémio, lembra-se?

Ah lembro-me perfeitamente: 75 contos. Naquela altura era muita massa e eu decidi que, como eles os dois me tinham ajudado tanto, que íamos logo gastar tudo. E fomos os três uma semana para a Grécia, para Atenas, porque eles adoravam mitologia grega, o pai contava-lhes aquelas histórias todas. Aterrámos os três na Grécia em Dezembro. Estava um tempo extraordinário. Passámos a semana inteira no Pártenon!

Este novo livro mostra uma faceta diferente: ser avó. Já sei que foi convencida a escrevê-lo. Porquê?

Isto não tem nada a ver com o tipo de coisas que eu faço. Quando me ligaram a fazer a proposta, da Lua de Papel, deixei a senhora falar até ao fim e depois, com aquele meu ar sério disse: “Eu gostava muito, mas repare, eu trabalho para a Leya, não posso…” e a senhora: “Mas nós somos da Leya”. Está a ver a figura que eu fiz? Mas parece que não era nada disto que eles queriam, só soube depois. Eles queriam uma coisa muito séria, porque a Lua de Papel tem aqueles livros de auto ajuda, e queriam conselhos e o que é que as avós devem fazer. Eu disse que assim não, mas se quisessem uma coisa autobiográfica, fazia. E está a correr muito bem.

Percebemos, pelo livro, que foi criada por tias. Porquê?

Olhe é uma das coisas que, no outro dia até falei disso com o meu irmão, não nos perdoamos: não termos tido coragem de chegar ao pé da nossa mãe e de perguntar. Porque não foi por razões económicas, o nosso pai era um industrial.

Então os seus pais eram vivos?

Sim, sim. E somos três, eu sou a mais velha. Portanto iam dando filhos. Eu acho que a minha mãe não tinha nenhum instinto maternal. Há quem tenha e quem não tenha e ela não tinha. E foi sempre muito apaparicada pela mãe, pelos tios, que faziam as vontades todas à menina e isso tornou-a numa mulher muito fria, e sem nenhum instinto maternal. Achava-se muito nova para tratar das crianças – tinha 24 anos quando eu nasci, também não era assim tão nova – e ia dando às tias, enquanto houvesse tias.

E nem cresceu junto dos seus irmãos?

Não. A minha relação com o meu irmão a seguir a mim é muito boa porque nos encontrámos em Paris, já adultos. Ele estava lá a fazer o doutoramento e aí conseguimos uma relação muito forte. Mas só a partir dessa altura. Até aí era só nos natais e festas de anos.

Quando é que via os seus pais?

Natais, aniversários. Eu saí de casa com 15 dias e nunca mais lá voltei. Nunca dormi uma noite na casa da minha mãe. E isso deu-me muitos problemas porque achava, quando era pequena, que a culpa tinha de ser minha. Ouvia as minhas colegas no liceu a falar das mães e eu não sentia nada pela minha e achava que devia sentir porque todas sentiam. Durante toda a minha vida essa falta deu-me muitos problemas. E as pessoas que me criaram também estavam sempre a lembrar-me e a atirar à cara que não eram minhas mães.

Eram tias velhas?

Eram minhas tias avós, sim. Vivia com uma tia e um tio, que era herói da República, está a ver a idade que ele tinha. Aliás, a minha entrada na política foi com 5 anos em que fui com o meu tio ver a urna do Norton de Matos. Portanto, convivi sempre com gente muito velha e em casa, porque só fui à escola com 10 anos.

A primeira vez que foi à escola tinha 10 anos?

Porque eu disse que queria ir. Até aí ia um professor lá a casa, o que é uma coisa horrível. Hoje quando ouço dizer que os meninos ficam a estudar em casa com os pais, tios ou avós, passo-me! Porque não é só o que se aprende, obviamente que quando entrei para o liceu Filipa de Lencastre sabia mais do que as outras, mas quer dizer, não compensa. Há outras coisas, os amigos, viver em sociedade, às vezes até mais necessárias. Mas elas deixaram-me ir para o liceu, apesar de uma das minhas tias ter dito que que não ia gostar e que voltava logo para casa. Eu até inventava aulas que não tinha só para não vir para casa.

Foi difícil fazer amigos, pela primeira vez, com essa idade?

Olhe foi extraordinário. A minha melhor amiga, Maria Emília Moura, que trabalha na “TV Guia”, é a minha melhor amiga desse tempo. Fez comigo o liceu, foi comigo para a faculdade e depois para o “DN”. Fui uma aluna muito popular no liceu porque, no fundo, aquela é que era a minha família, era quem me dava atenção. Ia aos casamentos das empregadas todas, as professoras adoravam-me. Até há pouco tempo tinha uma professora a quem eu telefonava sempre e que morreu em Junho. Quando ela morreu a irmã ligou-me a dizer que tinham a casa cheia de fotografias minhas e dos miúdos, que eu ia mandando, de maneira que eu agora tenho a irmã. Herdei! Foi um tempo extraordinário.

Que marcas é que tudo isto deixa numa pessoa?

Conforme o feitio da pessoa, sabe? Tenho dois irmãos que reagiram de outra maneira e que têm um feitio muito mais complicado. Lembro-me de ser muito pequena e dizer “eu nunca me hei de esquecer disto”. E não esqueci, tenho muito boa memória. E quando era mais velha dizia “eu nunca me hei de esquecer disto e um dia hei de contar isto tudo”. Era a minha vingança.

E muitas dessas coisas passou para os livros.

Tudo. A minha vingança foi essa. Não se serve fria, serve-se gelada. Conto tudo. Se reparar há muito poucas mães nas minhas histórias e as que há estão longe ou não têm relação com os filhos. “Flor de Mel” ou um mais recente “O casamento da minha mãe”. As minhas mães não aparecem muito. Depois tenho uma imensidão de tias. O meu filho, quando era miúdo, é que dizia: “Nos teus livros há mulheres a mais e tias a mais.”

É por isso que faz questão de ser uma avó que brinca, que dá espaço para a imaginação e criação dos netos?

O meu marido era muito isso: as casas foram feitas para serem vividas e esta casa foi, desde que para aqui vim há 43 anos. Antes do 25 de Abril esta era uma casa onde as pessoas sabiam que podiam ficar, às vezes gente que eu não conhecia. E ainda ficam, acho que todos os meus amigos têm a minha chave. Nunca foi casa de museu, por isso é que está toda desarrumada. A mesa era para o pingue-pongue, como se vê, coitada, está toda torta, o corredor era para jogar à bola, na entrada havia um cesto de basquete, onde fazíamos os treinos. Havia uma parede no quarto do meu filho onde se podia escrever à vontade, só foi lavada quando ele foi para Erasmus.

Tem muitos amigos?

Tenho uma imensidão de amigos. Puros e duros, tenho um grupo muito bom. Sou amigo dependente e sei que posso contar com eles para tudo, e eles comigo. E eles sabem, o que é muito bom num amigo, quando eu preciso deles sem que tenha de pedir. Tenho um que, se eu não estou muito bem disposta, ou qualquer coisa, chego a casa e tenho cá um ramo de flores. Não é maravilhoso? E telefonamo-nos às 4h00, 5h00 da manhã.

Pois, já ouvi dizer que dorme pouco.

Durmo umas três horas por dia. Não é que não tenha sono, mas não tenho tempo para dormir mais. Tenho sempre escolas, quase todas as manhãs. Se são em Lisboa é fácil, se são mais longe é mais complicado. Devo ser a passageira mais frequente do Alfa das 6h00 ali em Santa Apolónia.

A quantas escolas é que vai por ano?

Ai, muitas. No outro dia fiz as contas e dá-me umas 80 por ano lectivo. Tirando as férias, feriados e fins-de-semana, dá quase uma por dia.

Nunca recusa convites?

Parece a minha filha! Ela é que está sempre a dizer que eu tenho de começar a dizer que não. Mas tem de ser, sim. Ainda por cima tenho tensão baixa, apesar de beber 20 cafés. No outro dia ia na rua com os olhos fechados, a dormir. Mas é que ia mesmo.

20 cafés?

Sim, 20. Daquelas cápsulas da Nespresso, duas embalagens por dia. Agora está quase a acabar, o Volutto, que é o que eu gosto mais. Eu e o Malkovich! Estou sempre de cafezinho na mão. E durmo. Chego à cama e durmo logo. Mas de manhã nem me custa acordar, até porque tenho de ir ao ginásio e quando é que eu tenho tempo? De manhã. Às 7h30 já lá estou.

E faz o que é que faz no ginásio?

Tenho um personal trainer. É lindo. Faz-me muito bem. Vou a pé até ao ginásio, demoro meia hora. Depois faço meia hora de passadeira até ele chegar e se tiver tempo acabo na piscina. Mas o que eu gosto mesmo, a essa hora, é ver nascer o dia. Atravessar a Avenida da República a ver nascer o sol, é das coisas mais bonitas que há.

Voltando às escolas. Não se cansa de ir a tantas?

Já me custa um bocado… já vou às escolas há 30 e tal anos. Para dizer a verdade já custa um bocadinho. Há 32 anos que ando a dizer as mesmas coisas. Mas coitadinhos, eles são sempre diferentes, não é? Fazem é sempre as mesma perguntas. Este ano já comecei a dizer que não. E ando com a saúde complicada, às vezes vou a vomitar no comboio e tudo. Mas depois chego lá e gosto de falar com os miúdos. Eles são extraordinários, é uma alegria estar com eles.

O que se passa com a sua saúde?

Ah, tenho um segundo cancro. Mas eu mato cancros assim.

Teve um há 20 anos.

Tive, e este é por causa desse. Na altura as máquinas não eram tão sofisticadas como hoje e quando fazíamos radioterapia apanhava-nos o peito todo. Depois tudo o que apanhámos, com o correr do tempo, pode proporcionar novos tumores. É no outro peito e não é operável. Às vezes dói, chateia. Fiz radioterapia, devo estar toda radioactiva.

Como é que fala tão descontraidamente de uma coisa destas?

Então querida, é assim. O que é que a gente há-de fazer? A minha médica é que me diz que eu tenho de me mentalizar que sou uma doente oncológica crónica e que tenho de ir ao IPO de dois em dois meses. E eu vou.

Não tem medo de morrer?

Não, nem da primeira vez que tive e fiz a mastectomia radical. Fui eu, a Simone e a Manuela Maria [actrizes], todas ao mesmo tempo. Éramos as três cancerosas de serviço. Mas nunca pensei que ia morrer. Pensei que ia fazer uma operação difícil e o que é que eu fiz? Tudo coisas práticas: deixei uma data de coisas feitas no jornal, para não sentirem a minha falta e que eu tinha mesmo de fazer. Deixei uma procuração ao meu irmão, podia ser preciso qualquer coisa e cortei o cabelo muito curtinho.

O que é que não pode faltar quando está a escrever?

Muitas fotografias. Na minha mesa estão ali as fotografias daqueles todos a olhar para mim [Mário Zambujal, Lobo Antunes, os netos, Paris, o marido e o ex-namorado]. Tenho a mania da fotografia. De vez em quando ando meio louca e mudo tudo. Depois preciso de ter música sem palavras, clássica, não clássica e instrumental e tenho que ter a janela aberta para ouvir o barulho da rua.

Antes de publicar o seu primeiro livro de poesia, enviou-o para um concurso sob um pseudónimo. Porquê?

Imagine, pegava naquilo e mostrava a um amigo que me dizia que era muito giro, mas eu nunca teria a certeza, não é? Decidi concorrer a um prémio onde o júri me merecesse confiança e onde só houvesse um prémio. Porque a gente concorrer e o Zé das Couves ficar com o 1º lugar e a gente em terceiro, ninguém gosta. Foi uma coisa que a Maria Alberta Menéres me ensinou: só se concorre a prémios onde só haja um, para não passar pela vergonha de ficar em terceiro. E ganhei.

E o pseudónimo, Filipa Sousa e Silva. Esse nome porquê?

É o equivalente feminino do primeiro namorado que eu tive e a quem o livro é dedicado.

Namorou muito tempo com ele?

Até encontrar o Mário. E depois voltou a ser.

Mas estão juntos agora?

Agora já não, mas foram seis anos extraordinários. Encontrámo-nos mais de 30 anos depois e fez-me muito bem. Eu estava na fossa, tinham passado três anos da morte do meu marido, acho que foi a altura da minha vida em que estava mesmo mal. E fez-me muito bem. A história estava incompleta e fechou.

E agora está sozinha?

Muito bem, estou muito bem comigo. Apetece-me estar assim, farto-me de sair com os amigos, mas estou sozinha. De resto, nesta casa nunca houve mais nenhum homem, isso aí… nunca era aqui, era na casa dele. E à noite preciso mesmo de estar sozinha. Adoro fazer tricot, arraiolos, comida, sou muito prendada. Até sei tocar piano. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/122930-durmo-tres-horas-dia-nao-e-que-nao-tenha-sono-nao-tenho-e-tempo-mais, a 04 de Junho de 2011, em Jornal I

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