Entrevista a Um Mestre Cervejeiro…

Entrevista a Um Mestre Cervejeiro...   Fonte: http://www.ionline.pt/

Hoje trago um artigo, que li no decorrer do dia de ontem na imprensa nacional, e que versa, sobre uma entrevista a um cervejeiro…passo a transcrever a mesma…

« “Quando vemos alguém deixar metade do copo, é um ”dislike””

O que faz um mestre cervejeiro?

No histórico, tem um papel extremamente ingrato. O cervejeiro, tendo uma componente técnico-científica, habilitado com cursos de brew master, agrega o requisito de uniformidade de produto. Tem que ser capaz de aferir a qualidade das matérias-primas, que também são de colheita em colheita, mas garantir que a saída é um produto perfeitamente uniforme de ano para ano, de dia para dia. Tem que conseguir cozinhar as receitas a partir das matérias-primas e saber replicá-las constantemente. No fundo, é a capacidade de transformar em líquido as palavras do briefing de marketing, com os requisitos de marca e portefólio de produto.

Além do lado técnico, há um lado emocional associado ao processo? Temos que ter a capacidade de percepcionar e caracterizar as causas e efeitos nos líquidos, e a criatividade inerente a quem a partir da palavra tem que dar forma. Acabamos por fazer o design do líquido, damos-lhes estrutura, corpo, cor, brilho, amargura, até o copo. Temos um parecer relevante sobre a estrutura do copo que o consumidor utiliza. É muito importante a nossa vivência humana; desde estar ligado ao negócio agrónomo da empresa, até ao fim, em que damos inputs aos marketeers.

O humor é decisivo na prova?

O mestre cervejeiro tem uma profissão de eleição. Provamos cerveja todos os dias, o que pode ser visto como uma profissão muito tentadora. Ao contrário dos vinhos, onde se expele o líquido, aqui temos que beber um fundo de copo, embora o enchamos até meio, a 150 centilitros. A percepção do gosto é muito importante e requer um equilíbrio de humor. Temos que estar bem dispostos com a vida.

Que nem sempre é fácil.

Nem sempre é fácil, mas aí temos a vantagem de a equipa ser muito coesa, com alguma senioridade. Tem havido muito poucas mudanças ao longo dos últimos anos. Passei aqui uma década até chegar à liderança desta equipa de desenvolvimento de cervejas. A prova aqui não é uma questão de “eu acho”, é uma prova de “isto é” Super Bock, ou Carlbersg, ou Cristal.

Consegue fazer essa distinção às cegas?

Sim, tenho que ser capaz. Fazemos isto quase todos os dias. Submetemo–nos a isto quer em análise de produto que vamos buscar ao mercado, quer nos painéis de controlo de qualidade interno, para validação dos lotes. Todos os lotes que saem da fábrica são provados e validados por nós.

Consome cerveja fora do trabalho?

Sim, nunca me farto. Nem de cerveja nem de outros líquidos. O cervejeiro tem que estar actualizado com aquilo que o consumidor consome também, senão estaríamos toldados.

Quando pede uma cerveja olha-a com outros olhos?

Olho, primeiro com afecto. É o produto do nosso trabalho. Quando vemos alguém deixar metade do copo de uma cerveja, para nós é um “dislike”, em linguagem facebookiana. Quer dizer que a dose, a qualidade ou o momento não foi adequado ao consumo do meu trabalho. É agradável quando aquele amigo nos telefona a dizer que bebeu uma cerveja absolutamente espectacular.

Já mandou cervejas para trás?

Sim, e devem fazê-lo, se não estiver de acordo. O fornecedor tem o retorno garantido se a qualidade não for aceitável. Garantimos a substituição do lote. E é a melhor forma de saber o que se passa. Só reclamando se consegue melhorar. A cultura cervejeira faz-se de feedback.

Para quem consome, quais os primeiros sinais a ter em conta?

A primeira coisa é a higiene do copo. Segundo, é fundamental que a cerveja não esteja nem excessivamente quente nem fria. Tudo o que é acima da sensação de morna, superior a 8 graus, é desagradável, tal como abaixo de zero graus. Terceiro, é ver a forma como ela vive no copo, ou garrafa. Se ela não espuma, se não respira CO2, se a espuma forma apenas uma pequena camada que desaparece, é sinal que não está pelo menos como a desenhamos. Tem que ter dois dedos de espuma para se manifestar. Outro facto determinante é conhecer o rótulo do produto. Lá escrevemos algumas coisas que muita gente nem olha.

Falou do copo. Há quem diga que o segredo de uma boa cerveja passa por não lavar o copo. É um mito urbano?

É um perfeito disparate do ponto de vista da percepção geral do consumidor. Haverá certamente locais onde se calhar o melhor é que não os lavem para que mantenha uma mística. Mas não faz sentido, tanto mais que o copo, estando bem lavado, não adúltera em nada o líquido que lá se põe. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/129554-quando-vemos-alguem-deixar-metade-do-copo-e-um-dislike, a 10 de Junho de 2011, em Jornal I

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