Conheça a História do Festival de Vilar de Mouros….

Vilar de Mouros... Fonte: http://www.ionline.pt

Hoje trago nada mais nada menos que a história do primeiro festival de verão em Portugal, desta feita Vilar de Mouros.

«Vilar de Mouros. O Woodstock à portuguesa faz 40 anos

 A 8 de Agosto de 1971, Elton John actuou no primeiro festival de música pop em Portugal, que foi criado pelo médico António Barge

Elton John aterrou no Porto com manager, banda e instrumentos, pronto para o primeiro festival de música pop em Portugal. Só faltava um detalhe, ou melhor, um carro para o levar ao recinto. O transporte combinado não tinha chegado e no carro de António Barge, médico minhoto e mentor do Festival Vilar de Mouros, não cabiam todos os membros da banda, muito menos o equipamento. Por sorte, Júlio Isidro, que ia apresentar a estrela no festival, já tinha chegado e deu boleia a Elton John e ao manager. Do caminho entre Porto e Viana, o apresentador só recorda o comentário sobre as nossas estradas: “Não são muito boas.” Elton John ia levar outras memórias de Vilar de Mouros, que partilhou com Amélia Barge, a mulher do criador do festival. Fernando Zamith entrevistou-a para o livro “Vilar de Mouros, 35 anos de Festivais” e reproduziu o diálogo.

Elton John: “Acha que eles estão a gostar?”

Amélia Barge: “Estão!”

Elton John: “Mas não se manifestam!”

Amélia Barge: “Não, cá em Portugal é assim.”

Era assim em 1971, no país de brandos costumes que acolheu pela primeira vez uma espécie de Woodstock, com menos lama, talvez menos droga e mais “tintol”, como se via nas fotografias. Era também a primeira vez que se falava em vegetarianos por terras de boa carne minhota. Uma modernice do grupo pop Manfred Mann, nos tops na altura, que Isabel Barge, filha do organizador, conseguiu solucionar. Numa pensão de Caminha lá se arranjou um prato feito à medida, recordou Fernando Zamith.

Mas estas são as pequenas peripécias num projecto megalómano que não foi organizado por produtoras com grandes patrocinadores, nem por institutos públicos, mas por um médico e pela sua família que ficou com dívidas durante anos. “O festival custou 2500 contos [cerca de 600 mil euros hoje] e eles só tiveram o apoio de 30 contos de uma instituição pública. O resto foram os bens da família e as receitas de bilheteira. Houve muita afluência, mas não foi suficiente. A mulher obrigou-o a prometer que não se metia em mais nenhuma coisa destas. No final deve ter tido um prejuízo de 1700 contos”, diz ao i o jornalista da Lusa.

Vilar de Mouros, paraíso O objectivo deste médico, nascido em Venade, a seis quilómetros de Vilar de Mouros e a viver em Lisboa há muito tempo, era divulgar a região. “Ele achava que era preciso promover o resto do país, descentralizar. Foi ele que mandou fazer os primeiros postais da região para oferecer aos amigos”, recorda Fernando Zamith, também professor na Universidade do Porto.

António Barge, com dois filhos, e uma enorme paixão pela música demorou três anos a planear o festival. Antes já tinha feito parte da organização de alguns eventos musicais na terra e o de 1968 foi o mais marcante. Entre ranchos folclóricos, houve cantores de intervenção. “Zeca Afonso não resistiu e tocou músicas proibidas. António percebeu se queria fazer uma coisa em grande, não podia ter o regime à perna”, diz o jornalista. Como era uma espécie de futurista, começou a pensar num evento em grande e depois de 1969, quando aconteceu o pai de todos os festivais, o Woodstock, nos Estados Unidos, virou-se para a juventude.

O planeamento não olhava a meios e não tivessem os The Beatles acabado um ano antes, António Barge teria conseguido trazer os Fab 4 a Portugal. “O mais incrível era a determinação de António Barge em ir em frente sem receio. Ele queria trazer os Beatles e quando lhe disseram que cobravam 1000 contos [o equivalente hoje a 250 mil euros] por concerto, ele respondeu: ”Tudo bem””, recorda ao i Fernando Zamith.

Os Rolling Stones também foram uma hipótese e só por não terem datas vagas é que não foi possível virem a Portugal. Aliás, Elton John esteve quase para não vir e os Black Sabbath eram os substitutos. Barge conseguiu apoios da Phillips para a parte eléctrica e as obras nas estradas da região foram adiantadas por causa do festival.

Quando os nomes foram sendo confirmados, os jovens foram aderindo. Ninguém queria perder aquela oportunidade. Apesar disso, as cerca de 30 mil pessoas ainda não sabiam bem o que fazer em festivais. “As pessoas estavam contidas. Sabiam que a polícia andava por ali. Os concertos foram pequenos e não houve encores porque ninguém os pediu”, diz o autor do livro. A mediatização do evento também não foi grande. A RTP, que inicialmente tinha concordado em gravar o festival, recusou à última da hora, provavelmente com medo do regime. Por essa razão, praticamente não existem registos em vídeo do festival.

Livro A história do primeiro festival nacionais só está contada no livro de Fernando Zamith, lançado quando se assinalaram 35 anos do mesmo. “A minha família é de Vilar de Mouros e tenho uma vivência com a aldeia e com o festival. Fui à edição de 82 com 18 anos e foi uma experiência marcante”, recorda. Foram nove dias com U2, The Stranglers, Carlos Paredes, Jáfumega, entre outros. “Além disso, decidi avançar para o livro porque percebi que havia pouca informação e muitas ideias erradas, como ser um festival contra o regime”, conta ao i. Fernando Zamith não conseguiu entrevistar o mentor do festival, pois António Barge morreu em 2002, mas falou com a família que acompanhou de perto a criação do evento de música mais falado. O criador de Vilar de Mouros não organizou mais festivais, mas esteve presente nalgumas edições. Entre 1999 e 2007 houve festival, até que a autarquia e a PortoEventos se desentederam. Pode ser que um dia o festival regresse, este ano teria sido uma boa desculpa.

 

 


Tozé Brito
cantor e compositor
Actuou no Festival de 1971
no Quarteto 1111

 

“Era uma liberdade controlada. O público fumava marijuana e a PIDE não interferiu”

 

O que recorda do Festival?

Foi um dos espectáculos mais importantes da minha vida. Estávamos na pré-história dos festivais, o Woodstock tinha sido dois anos antes e nunca se tinha visto nada assim em Portugal. Foi um momento mágico, de liberdade controlada. A PIDE estava por lá mas não interferiu. Sentia-se o cheiro de marijuana, vi pessoas a tomarem banho nus no rio e a polícia não fez nada para impedir.

 

Como é que o público reagiu?

No início da tarde, nos concertos antes do nosso, o público ainda estava morno. Queriam era apanhar sol e conviver. Lembro-me que quando tocámos, sabíamos que não podíamos ser contestatários mas queríamos abanar o público por isso cantámos a música “Glory, Glory, Hallelujah” [The Battle Hymn of the Republic], que se tornou o hino da luta contra escravatura. Cantámos à capela e as pessoas levantaram-se acompanharam-nos. Foi um grande momento.

Como foram os concertos?

Nós [Quarteto 1111] actuamos nas duas noites e lembro-me que Manfred Man foi a apoteose. Elton John também foi brilhante a tocar e a saltar no piano como nunca se tinha visto em Portugal.

Conheceu o criador do festival, o médico António Barge? Sim. Ele era um homem especial, com ideias muito à frente do seu tempo. Era um melómano, gostava de música clássica, pop. »

In: http://www.ionline.pt/conteudo/142006-vilar-mouros-o-woodstock–portuguesa-faz-40-anos, a 8 de Agosto de 2011, em Jornal I

RT

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